Como fazer o cronograma de um projeto cultural
Por Jean Yuki , elaborador de projetos e captador de recursos
O cronograma é o documento contra o qual a execução do seu projeto vai ser comparada do começo ao fim. Este guia mostra os dois cronogramas que o edital costuma pedir, de onde o prazo realmente começa a contar, por que o evento principal não pode ficar no último mês e como alterar datas sem que isso vire problema na prestação de contas.
O prazo não começa no resultado
É o erro que desmonta o cronograma inteiro. O edital define um marco para o início da execução, e ele quase sempre é a assinatura do termo ou o recebimento do recurso, não a publicação do resultado. Entre uma coisa e outra podem passar meses. Ache essa frase no edital antes de escrever a primeira data, porque todo o resto se apoia nela.
Os dois cronogramas, e por que eles precisam bater
A maioria dos editais pede os dois, às vezes numa planilha só. Eles descrevem o mesmo projeto por eixos diferentes, e a incoerência entre eles é uma das perguntas que o parecerista faz com mais frequência:
Cronograma de execução
As atividades ao longo do tempo: pré-produção, contratações, ensaios ou gravação, apresentações, oficinas, divulgação, finalização, relatório. Responde o que acontece, e quando.
Cronograma de desembolso
Quando cada item do orçamento é pago. Responde quanto sai, e quando. Item sem mês e mês sem item são as duas pontas soltas que mais aparecem.
O que quase sempre falta no cronograma
Nenhuma destas etapas aparece no resultado do projeto, e todas consomem tempo real. Elas são a diferença entre um cronograma que se cumpre e um que atrasa desde o primeiro mês:
- Abertura da conta específica. Quando o edital exige conta própria para o projeto, ela precisa existir antes do primeiro pagamento, e banco tem o ritmo dele.
- Contratação da equipe. Combinar valores, assinar contratos, conferir se cada pessoa consegue emitir nota ou aceitar RPA. Descobrir isso na semana do pagamento é o que gera pagamento sem comprovação válida.
- Autorizações e licenças. Uso de espaço público, alvará para evento, autorização de vizinhança, direitos autorais de obra de terceiro. Cada uma depende de um órgão ou de uma pessoa que não é você.
- Divulgação antes, não depois. Público não aparece por acaso. A divulgação precisa de semanas antes da atividade, e ocupa um lugar no cronograma anterior a ela.
- Coleta do material de comprovação. Foto, lista de presença, registro em vídeo, print de divulgação. É trabalho durante a execução, e sem ele o relatório final não fecha.
- A prestação de contas. Tem prazo próprio depois do fim da execução, e escrever relatório leva dias, não horas.
Monte de trás para frente
Escreva primeiro a última data possível de execução, depois o relatório, depois a última atividade, e vá recuando. Quem monta de frente para trás distribui as atividades a partir do otimismo do primeiro mês, e a folga sobra justamente onde ela não serve para nada. Montando do fim, o aperto aparece cedo, quando ainda dá para tirar uma atividade ou pedir prazo maior na proposta, em vez de aparecer no meio da execução, quando a equipe já está contratada.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre cronograma de execução e cronograma de desembolso?
O de execução lista as atividades ao longo do tempo: pré-produção, ensaios, gravação, apresentações, oficinas, divulgação, relatório. O de desembolso mostra quando o dinheiro sai, item por item do orçamento. Muitos editais pedem os dois, às vezes na mesma planilha, e eles precisam conversar: atividade que acontece no mês três com pagamento previsto no mês seis é o tipo de incoerência que gera diligência.
De quando começa a contar o prazo de execução?
Do marco que o edital define, e não da data do resultado. Os mais comuns são a assinatura do termo de execução cultural, o recebimento efetivo do recurso e a publicação da homologação. Entre o resultado e esse marco podem passar semanas ou meses, o que muda todo o cronograma. Localize a frase exata no edital antes de escrever a primeira data.
Posso alterar o cronograma depois da aprovação?
Em geral sim, com pedido formal ao órgão gestor, justificativa e antes de a mudança acontecer. É um procedimento normal, previsto na maioria dos editais, e não sinal de má gestão. O que costuma ser recusado é a alteração comunicada depois do fato, quando o gestor já não tem como acompanhar nem autorizar. Guarde a resposta do pedido, porque ela é o que sustenta o relatório final.
Preciso detalhar por mês, por semana ou por dia?
Use a unidade que o edital pedir, e quando ele não pede, o mês costuma ser suficiente. Detalhamento por dia amarra o projeto a datas que ainda não estão fechadas e obriga a pedir alteração por qualquer deslocamento. Por outro lado, um cronograma que só diz ao longo do período não mostra planejamento, e perde nota em critério de viabilidade.
Por que não deixar o evento principal no último mês?
Porque não sobra nada para o imprevisto. Se o repasse atrasa, se chove no dia da apresentação em praça, se o espaço cancela, não há mês seguinte para remarcar dentro do prazo, e o objeto fica descumprido. O evento principal ficar no penúltimo mês, ou antes, é o que dá espaço para remarcar sem pedir prorrogação.
O que é uma boa distribuição das atividades?
Não existe uma fórmula única, mas há um padrão que funciona: uma parte inicial para pré-produção e contratações, a maior parte para a execução propriamente dita, e um trecho final reservado para finalização, divulgação de resultados e relatório. O que quase nunca funciona é comprimir a pré-produção para começar a executar logo, porque é ela que sustenta tudo o que vem depois.
O que fazer se o recurso atrasar e o prazo estiver correndo?
Escreva ao órgão gestor assim que perceber, registrando a data em que o recurso deveria ter chegado, e peça a readequação do cronograma ou a prorrogação, conforme o edital permitir. Atraso de repasse é motivo aceito com frequência, justamente porque não foi você que causou. O que prejudica é executar com dinheiro próprio para cumprir a data e depois tentar reembolsar, porque despesa feita fora do período de execução costuma ser glosada.
O cronograma influencia a nota?
Sim, na maioria dos editais, pelo critério de viabilidade ou de capacidade de execução. Um cronograma coerente com o orçamento e com o porte do projeto é o que mostra à comissão que a proposta foi pensada e não improvisada. É comum ver projeto com boa ideia perder ponto porque prometeu em quatro meses o que o próprio orçamento indicava levar dez.
Quem manda é o edital
Este guia reúne o que se repete nos editais culturais brasileiros e no que a lei estabelece. Prazos, documentos exigidos, valores e critérios mudam de um edital para outro, e o texto do edital a que você vai concorrer prevalece sobre qualquer coisa escrita aqui. Leia o edital inteiro, inclusive os anexos.
Fontes oficiais
- Lei nº 14.399, de 8 de julho de 2022 (Política Nacional Aldir Blanc)
- Lei nº 14.133, de 1º de abril de 2021 (Lei de Licitações e Contratos)
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