O que é contrapartida em edital cultural
Por Leonardo Schenato Barroso , conselheiro estadual de cultura e jornalista
Contrapartida é a palavra do edital que significa duas coisas diferentes, e entregar a errada custa caro. Este guia mostra como reconhecer qual dos dois sentidos o seu edital usa, o que costuma ser aceito como contrapartida social, como escrever uma que você consiga cumprir e por que ela é cobrada na prestação de contas.
A mesma palavra, duas obrigações opostas
Em edital de fomento direto, aquele em que o poder público repassa o dinheiro, contrapartida quase sempre é uma atividade que você devolve à sociedade, de graça. Em lei de incentivo fiscal e em alguns programas estaduais, é dinheiro que você mesmo precisa somar ao projeto. São coisas opostas com o mesmo nome. Antes de escrever uma linha, procure a palavra no edital inteiro e veja de qual das duas ele está falando.
Como reconhecer cada sentido
O edital raramente avisa que está usando um sentido específico. Quem entrega dá a pista pelas palavras que estão em volta:
Contrapartida social
Aparece perto de gratuidade, democratização do acesso, comunidade, oficina, escola pública, acessibilidade. É uma atividade, e o que ela custa entra no orçamento do projeto.
Comum em editais de fomento direto: Aldir Blanc, Paulo Gustavo, editais estaduais e municipais de apoio a projetos.
Contrapartida financeira
Aparece perto de percentual, aporte, recurso próprio, valor mínimo, comprovação de capacidade financeira. É dinheiro que precisa entrar no projeto além do recurso do edital.
Comum em leis de incentivo fiscal e em programas que dividem o custo com o proponente ou com um patrocinador.
O que costuma ser aceito
A lista muda de edital para edital, e o edital manda. Estas são as formas que mais aparecem, e todas têm em comum o fato de nascerem do próprio projeto em vez de correrem por fora dele:
- Sessão ou apresentação gratuita. Uma das apresentações do projeto, aberta e sem cobrança, em geral fora do circuito habitual.
- Oficina ou roda de conversa. Você já domina o assunto do projeto, e ensinar o processo custa menos que criar uma atividade nova.
- Distribuição gratuita de parte do que foi produzido. Exemplares de livro para bibliotecas e escolas, cópias de disco, ingressos para instituições. Peça recibo assinado por quem recebe.
- Atividade em equipamento público. Escola, biblioteca, CRAS, unidade de saúde, praça. Combine antes com a instituição, por escrito, porque a agenda dela não é a sua.
- Acesso livre ao material produzido. Disponibilizar o resultado em plataforma aberta, ou licenciá-lo de forma que outras pessoas possam usar.
Escreva o que dá para provar
A diferença entre uma contrapartida que passa e uma que gera diligência raramente está na generosidade da proposta. Está em ela ser verificável.
Vago
Promover a democratização do acesso à cultura junto à comunidade local, ampliando o alcance social do projeto.
Verificável
Uma apresentação gratuita do espetáculo na quadra da escola municipal do bairro, no terceiro mês de execução, com capacidade para cerca de duzentas pessoas, com libras, e com registro fotográfico e lista de presença.
Onde ela é cobrada
A contrapartida deixa de ser promessa no momento em que o termo é assinado: ali ela passa a ser parte do objeto, e o objeto é o que a prestação de contas verifica. Três coisas seguem disso, e vale saber delas antes de escrever:
Ela entra no relatório final
O Relatório de Execução do Objeto descreve o que foi realizado, e a contrapartida é parte do realizado. Sem registro, ela conta como não cumprida, mesmo tendo acontecido.
Não cumprir tem consequência financeira
O órgão gestor pode glosar a parte do recurso ligada à obrigação não cumprida, e pode rejeitar as contas se entender que o objeto ficou incompleto. É por isso que prometer pouco e cumprir é melhor que prometer muito e explicar depois.
Mudança se pede antes, nunca depois
Se a atividade combinada ficou impossível, escreva ao órgão gestor explicando o motivo e propondo a substituição, antes de a data passar, e guarde a resposta. Alteração comunicada depois do encerramento é a que costuma ser recusada.
Perguntas frequentes
Depende do edital, e é justamente por isso que a palavra confunde. Na maioria dos editais de fomento direto, aqueles em que o poder público repassa o recurso, contrapartida é uma atividade devolvida à sociedade, sem custo para o público, e não dinheiro do proponente. Em leis de incentivo fiscal e em alguns programas estaduais e municipais, contrapartida significa aporte financeiro próprio ou de patrocinador. Leia cada aparição da palavra no seu edital antes de assumir qualquer uma das duas.
Não. Vários editais culturais dispensam a exigência, especialmente nas faixas de menor valor, e outros a tornam facultativa e pontuável, ou seja, quem propõe ganha nota mas quem não propõe não é eliminado. Como isso muda de edital para edital, o único jeito de saber é procurar a palavra no texto.
As formas mais comuns são apresentação ou sessão gratuita, oficina aberta à comunidade, distribuição gratuita de parte dos produtos, como livros, discos ou ingressos, atividade em escola pública ou equipamento público, disponibilização da obra em plataforma de acesso livre, licenciamento aberto do material produzido, e medidas de acessibilidade acima do mínimo exigido. O edital costuma trazer uma lista, e o que está fora dela pode ser recusado.
Em alguns editais sim, em outros a acessibilidade é obrigação separada e não pode ser oferecida como contrapartida, porque já é exigida por lei. A Lei Brasileira de Inclusão obriga que atividade aberta ao público seja acessível, e vários editais culturais pedem medidas específicas, como libras, audiodescrição ou legenda, além de exigirem que parte do orçamento seja destinada a elas. Confira se o seu edital trata acessibilidade como item próprio antes de contá-la duas vezes.
Em regra não. A ideia da contrapartida social é ampliar o acesso, e cobrar do público o que foi pago com dinheiro público esvazia isso. Alguns editais admitem valor simbólico ou meia-entrada em parte das sessões, mas isso precisa estar escrito no edital, não presumido.
Ela é cobrada na prestação de contas como qualquer obrigação do termo assinado. O órgão gestor pode abrir diligência para você comprovar, pode glosar a parte do recurso ligada a ela, e pode rejeitar as contas se entender que o objeto não foi cumprido integralmente. A saída mais comum, quando o descumprimento foi por motivo justificável, é pedir alteração antes do prazo, com justificativa, e não depois do fato.
Em geral é possível, mediante pedido formal ao órgão gestor, com justificativa, e antes de a mudança acontecer. O que costuma ser recusado é a alteração comunicada depois do encerramento, quando já não há como o gestor avaliar nem acompanhar. Se a atividade combinada ficou impossível, escreva ao órgão explicando e propondo a substituição, e guarde a resposta.
Precisa, quando gera custo, e quase sempre gera. Oficina gratuita consome hora de equipe, material e deslocamento; sessão em praça consome som e transporte. Deixar esses custos fora do orçamento é assumir que você vai pagá-los sozinho ou remanejar de outro item, e remanejamento não previsto é uma das causas mais comuns de glosa.
Quem manda é o edital
Este guia reúne o que se repete nos editais culturais brasileiros e no que a lei estabelece. Prazos, documentos exigidos, valores e critérios mudam de um edital para outro, e o texto do edital a que você vai concorrer prevalece sobre qualquer coisa escrita aqui. Leia o edital inteiro, inclusive os anexos.
Fontes oficiais
Continue por aqui
Como prestar contas de projeto cultural
O que é o Relatório de Execução do Objeto, que comprovação guardar desde o primeiro dia, o prazo de 30 dias, o que é glosa e como funcionam as ações compensatórias quando as contas são rejeitadas.
Como montar o orçamento de um projeto cultural
O item que mais derruba nota e o que mais dá dor de cabeça na prestação de contas. Como orçar com preço de mercado, o que o edital costuma não pagar, e por que orçamento e cronograma precisam contar a mesma história.
Como fazer o cronograma de um projeto cultural
Os dois cronogramas que o edital pede, de onde se conta o prazo de execução, por que o evento principal não pode ficar no último mês e como alterar o cronograma sem virar problema na prestação de contas.
Como se inscrever na PNAB
O passo a passo da inscrição em editais da Política Nacional Aldir Blanc: quem pode participar, quais documentos são exigidos, como funcionam as cotas e os erros que mais eliminam projeto.
Como montar um portfólio para edital cultural
O portfólio de edital não é livro de arte: é prova de capacidade de realizar. O que serve como comprovação, como organizar, os limites formais que cortam inscrição e o que fazer quando você ainda não tem histórico.
A contrapartida é cobrada no fim, e provada no dia
Crie seu perfil na Guria e mantenha num lugar só o histórico do projeto, os documentos e o registro do que você já cumpriu.
Criar meu perfil